
Outro dia alguém dizia: “Antes, o avô passava pela porta do quarto do neto e nem parava. Agora, ele entra e conversa de igual para igual sobre as novidades na web”. A observação oferece a ideia exata do que é convívio hoje entre avós, pais e filhos. Mas entre encontros e desencontros, o ambiente familiar, que vem mudando em todo o ocidente, necessita de regras para que conflitos sejam resolvidos e todos vivam em harmonia. “Antes de tudo, quando se trata de abordar a questão da família , não se pode deixar de observar, como prioridade, o fato de que os bebês e as crianças necessitam, fundamentalmente, de adulto que cuidem deles”. A psicanalista e psicóloga carioca Lulli Milman, uma das fundadoras do serviço de atendimento infantil na Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) lembra que a segurança e o sentido da existência proporcionados pelo adulto são uma boa base importante no desenvolvimento das crianças dentro do ambiente familiar. Autora do livro “Cresceram” – um guia para pais de adolescentes (Editora Nova Fronteira) e com sua longa experiência clínica, Milman diz que essa ideia é fundamental: “Adultos cuidando de suas crianças para torná-las responsáveis é o que nos diferencia das outras espécies animais. Essa idéia, acrescenta Lulli Milman, tem mudado bastante no ocidente – e continua mudando. "Temos”, lembra ela, “as famílias mono-parentais, em que as mães, as mulheres são quem, quase sempre, determinam todas as regras – tanto nas famílias das comunidades mais pobres, nas favelas, quanto nas classes médias. Hoje, vemos outras famílias constituídas por homossexuais, por exemplo, aquelas que estão sendo objeto de tantas discussões atualmente. Não importa como a família se constitui. O que importa é a ideia do fixo, da segurança e do aconchego. Deste modo, não importa se as famílias são mono parental ou não. A continuidade da relação entre pais e filhos é fundamental. Continuidade, essa é a palavra – chave. Não a continuidade entre pais e mães, maridos e mulheres, mas sim entre cuidadores e crianças”. “Sobre os conflitos familiares, como administrá-los: desde a segunda geração da bíblia”, comenta Milman, “sempre existiram conflitos: desde quando Abel e Caim brigaram. A confusão começou ali. De lá pra cá, a forma como os conflitos se expressam é o que mudou. Mas não a sua essência. Se o conflito surge no ambiente familiar é preciso tentar resolvê-lo no nível do convívio. O que eu vejo como fonte geradora de conflitos, atualmente, é a possibilidade múltipla as muitas possibilidades de escolhas oferecidas as crianças pelos pais. Desde muito pequena, os pais já pedem a criancinha a escolher o sapato que deseja. Esta é uma expressão da forma de vida das famílias atuais em que os conflitos com relação à hierarquia são as mais frequentes. Quem é autoridade na casa? Criam-se assim, me parecem às grandes fontes de conflitos porque os pais, agindo dessa forma, se desautorizam e se eximem da sua autoridade. As crianças, por sua vez, começam a ter dificuldade de reconhecer hierarquias, então, dentro do âmbito familiar, começam a desmontar. Porque isso ocorre? Segundo Lulli, hoje o adulto tem medo de envelhecer, então encontram tempo para se ocupar com os filhos ou para se preocupar com as crianças e adolescentes. Autoridade - ou a falta dela -, é uma das grandes questões, uma das grandes discussões do nosso tempo. Às vezes, as mães não conseguem assumir a autoridade e se queixam: “Por que é que eu tenho que ficar dando as broncas?’’. Assim, os adultos precisam cuidar e se preocupar com suas crianças. Do contrário elas ficam soltas, se sentem soltas e sem pais – e tornam-se todos, pais e filhos, irmãos uns do outros. “Constitui um grande perigo cuidar de crianças assim, malcriadas. Sem conhecerem o sentido da solidariedade e sem reconhecerem o que é ser parceiro no afeto. Com frequência, este é o panorama do nosso mundo, da contemporaneidade”. |
| Informativo "O Segurado" - Março de 2012 |